Arqueologia gera polémica na Terceira

"Não podemos pactuar com este tipo de afirmações porque além de prejudicarem a comunidade arqueológica, não se pode estar a fazer julgamentos precipitados".

Arqueologia gera polémica na Terceira
Os responsáveis pelo Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea dizem que as conclusões sobre os achados arqueológicos na ilha Terceira constituem "sensacionalismo à Indiana Jones".
Membros da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA) dizem ter descoberto na ilha Terceira vestígios arqueológicos que os especialistas acreditam ser templos dedicados à deusa Cartaginesa Tanit (provavelmente do século IV a.C.). Dizem ter descoberto um conjunto significativo de monumentos do tipo Hipogeu (monumentos funerários) e cerca de três santuários Proto-Históricos escavados na rocha, no Monte Brasil, cidade de Angra do Heroísmo.

Contudo, o conselho científico do Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea (CEAM) discorda e afirma que é necessário apresentar dados concretos para afirmar tal facto.

Nuno Ribeiro, da APIA, afirmou que "os testemunhos encontrados nas várias ilhas dos Açores e em especial na ilha Terceira, provam que não têm existido estudos arqueológicos em meio terrestre. Para os arqueólogos e investigadores deste projecto que a APIA lidera, "representam realidades que a bem da História de Portugal e da Europa devem ser estudados, pois qualquer historiador procura a verdade histórica sem preconceitos e sem doutrinas pré-concebidas".

Já Élvio Sousa, da CEAM, discorda e refere que "não podemos pactuar com este tipo de afirmações porque além de prejudicar um pouco a comunidade arqueológica, não se pode estar a fazer julgamentos e afirmações precipitadas. As coisas têm de ser provadas e, para haver mortos, necessariamente têm de haver vivos. Houvesse de facto povoamento e estabelecimentos funerários, e tinham de haver também infra-estruturas humanas, cerâmicas, metais, objectos, e outro tipo de construções, por isso, até ao momento não são dados credíveis. Como investigador e cientista não posso pactuar com isso. O meio académico estava a reagir e uma mentira, que, repetida várias vezes, acabaria de facto por passar por verdade!", acrescentou.

"É um absurdo", adianta, "um absurdo científico! Tais estruturas constam dos inventários regionais, inventários do património que as instituições locais de direito têm efectuado, são estruturas antropológicas ou etnográfícas que têm uma explicação industrial e económica. Não são aquilo que se têm vindo a dizer, que é um absurdo científico", acrescentando que é um "sensacionalismo à Indiana Jones, que é uma imagem que é importante para passar a profissão do arqueólogo mas não se pode cair nesse exagero científico e dar afirmações voláteis desse ponto de vista!"

Nuno Ribeiro refuta as críticas e diz vê-las "como algo que as pessoas não conhecem, e precipitam-se a falar de algo que não viram, nem leram. Refira-se que o primeiro artigo publicado resultante na participação do XV Simpósio de arqueologia do Mediterrâneo SOMA 2011, ainda não foi publicado. Nesse artigo, a comunidade científica terá oportunidade de avaliar e aí sim de refutar. O método científico é feito de provas e de críticas. Compreendo-as. Posso é não concordar com algumas delas, porque temos provas daquilo que dizemos. A este propósito nos próximos Congressos Mundiais SEAC 211 que se vai realizar em Évora, em Setembro, e no próximo Congresso do Mediterrâneo iremos apresentar mais dados inéditos à comunidade científica internacional. Essa sim é a mais importante. Em Portugal a ciência é vista como um feudo de apenas de alguns pensadores e clientes do estado. A APIA apresentará em Setembro um novo projecto que será financiado por entidades particulares e envolverá várias universidades portuguesas e investigadores de vários países. Em relação às críticas. Não me assustam. Sei que não irei para a fogueira. Estou a fazer apenas o meu trabalho de cientista".

Estruturas polémicas na rocha

O que os investigadores da APIA dizem ser santuários, a CAEM diz serem estruturas escavadas na rocha que têm uma utilidade uma justificação antropológica e uma utilidade antropológica. Para a APIA foi encontrado no Monte do Facho, santuários com "cadeiras" escavadas na rocha e um tanque cerimonial. Na área do Forte de S. Diogo, dizem existir dois templos escavados dentro de monumentos do tipo hipogeu, associado a sacrifícios e rituais de libações.

RITA RIBEIRO
ritinha.azores@hotmail.com

5 de Agosto de 2011

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