Improvisador Jose Eliseu - 30 anos de cantorias

José Eliseu, engenheiro do ambiente de profissão, assinala, em 2011, 30 anos de carreira como cantador popular.
Junho de 1981. Um jovem e franzino José Eliseu, a um mês de completar 11 anos de idade, faz a sua estreia numa cantoria pública, no Império de S. João de Deus na freguesia de Santa Luzia, em Angra do Heroísmo.
Criado num ambiente familiar onde o pai organizava "praticamente todas as semanas" serões de cantoria com os amigos, o pequeno José cresceu à volta de quadras e rimas que começou a recriar junto de amigos da escola e pessoas mais velhas que achavam piada "a alguém tão pequeno fazer aquilo", recorda.
Daí surgiu o convite do cantador António Plácido para actuar em público, ao qual respondeu com entusiasmo, mas chegando o dia "os nervos eram tantos que nem queria ir".
Chegado ao local, o Pezinho já estava a decorrer e quando foi chamado a juntar-se aos "veteranos", ficou "sem saber o que fazer", tendo mesmo sido brindado com um piropo da assistência para que "saísse dali e deixasse os adultos cantarem, pois era normal as criança andarem ali à volta e lá tive que dizer que estava ali para cantar".
Apesar dos nervos, e da reconhecida inocência das rimas, a sua figura de criança levou o público a apreciar a sua actuação.
Nessa mesma noite teve o seu primeiro desafio, apadrinhado por António Plácido, sendo que os nervos voltaram a fazer das suas, entre actuações "fiquei muito mal disposto".
A partir daí não mais parou de cantar, sendo que nos primeiros anos, o factor novidade era garante de sucesso nas cantorias de José Eliseu, a que se aliava a questão de ser o mais novos de todos os cantadores.
No entanto, após esse período inicial, o cantador afirma que passou por uma fase em que "o corpo cresceu e não foi acompanhado a nível psicológico e as pessoas começaram a exigir mais a nível de conteúdo que eu não conseguia dar, estagnei".
As dificuldades levaram-no mesmo a pensar desistir, mas por volta dos 18 anos, sentiu que era altura de perder o medo e "aventurei-me, dei o salto qualitativo e dai para cá foi sempre a cantar".
Versátil
José Eliseu define-se como um cantor "versátil" que tanto se sente à vontade na parte cómica como na mais séria, fruto da influência que diz ter tido de vários cantadores de ambos os géneros. "Tenho facilidade em me adaptar ao estilo do outro cantador, vejo qual a área em que este rende mais e vou por aí".
Para si, um bom cantador deve conjugar o dom, com o desenvolvimento de mecanismos mentais "da conversação em rima dos formatos das quadras, cantar muitas vezes refina os recursos técnicos", juntar-lhe capacidade de brincar e ser mordaz e uma pequena ajuda da leitura "importante para se ter uma base de vocabulário maior".
O cantador popular considera que a sua personalidade é moldada pela cantoria e que as suas rimas reflectem invariavelmente traços da sua maneira de ser e ver o mundo.
A nível de exemplo, refere o facto de quando lê um livro e se depara com uma palavra desconhecida "antes mesmo de procurar o seu significado, penso em outras palavras que rimem com ela", reconhecendo que as cantorias ajudaram-no muito a ser "extrovertido e de relacionamento fácil".
Este forte vínculo faz com que José Eliseu garanta que, enquanto estiver com lucidez suficiente, irá continuar a cantar, pelo prazer de fazer rimas "sempre com a certeza que a inspiração é inconstante e algo com que temos de saber viver".
Momentos marcantes
Com trinta anos de carreira, são vários os momentos marcantes para José Eliseu.
Desde a primeira actuação no estrangeiro, a sua passagem pelo Rio de Janeiro onde actuou perante emigrantes "que não vinham aos Açores há 40 ou 50 anos", a actuação perante o então Presidente da República, Jorge Sampaio, as cantorias na Expo 98 e na Culturgest em Lisboa, são muitos os instantes especiais.
José Eliseu recorda fortemente também a primeira vez que cantou com Charrua, considerado o maior cantador açoriano de todos os tempos.
"Foi a meados dos anos 80, na Praia da Vitória. Estava nervosíssimo porque ele, sem intenção, era uma figura que intimidava".
Nova era na cantoria
Nestas três décadas José Eliseu considera que a cantoria passou de um acto "quase de culto" para hoje ser entretenimento.
O cantador recorda a época em que as quadras ao desafio "eram quase uma aula, debatiam-se temas bíblicos, históricos, era um silêncio sepulcral nas actuações"
Depois, afirma, passou a ser vista como "diversão, que enche o programa das festas".
Actualmente, diz que se está a viver uma "nova era" na cantoria, fruto do aparecimento da jovem Maria Clara e de outros três jovens cantadores, que fizeram com que 2010, tivesse sido "provavelmente, o ano que me lembro de ver mais gente a ouvir cantoria por essa Terceira".
Sobre a jovem terceirense considera que "está a revolucionar a cantoria, tem perspicácia, tem todos os traços para ser uma grande cantadeira sem dúvidas nenhumas".
Renato Gonçalves
renato@auniao.com
Fotos: José Costa/Fotaçor

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