NA CÂMARA DE ANGRA Fórum sobre tourada à corda é proposta apresentada pelo PSD
Criar um conselho consultivo inter-municipal para a tourada à corda na ilha Terceira.
A proposta, apresentada ontem pelos vereadores do PSD na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, tem como objectivo fomentar o debate sobre questões dessa manifestação cultural na óptica dos ganadeiros, capinhas, da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, e do poder local e regional.
Em causa está a defesa da “festa brava” como parte integrante da tradição terceirense, não obstante de permanente avaliação de normas e regulamentos.
Diálogo e trabalho conjunto são os pontos-chave da proposta de criação de um conselho consultivo inter-municipal – autarquias de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória – para a tourada à corda na ilha Terceira.
A ideia surgiu por parte dos vereadores do PSD na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo (CMAH) e foi apresentada ontem ao executivo camarário.
“Tendo em conta que se trata da maior manifestação popular no arquipélago, assumindo-se como genuína e rara, daí a necessidade da sua preservação e qualidade”, defende António Ventura em comunicado enviado às redacções.
Na prática, o projecto consiste em reunir os principais intervenientes como as associações de ganadeiros, a Tertúlia Tauromáquica Terceirense, capinhas, o poder local e o governo regional, no final de cada época da tourada à corda “para articular e debater as questões daquela actividade”.
“A tradição da tourada à corda está presente nos nossos usos e costumes, nas expressões linguísticas, na nossa História, nas festas locais e no quotidiano social, bem como, e de forma substancial, na economia terceirense”, sustenta o social-democrata. E salienta:
“Interessa contribuir para o seu desenvolvimento na ilha, mas numa continuada avaliação e consequente implementação de procedimentos para a sua regulamentação, promoção, divulgação e defesa como actividade de relevo”.
Considerando “símbolo das gentes da Terceira, que representa uma riqueza etnográfica e um importante cartaz turístico dos Açores”, o vereador do PSD na CMAH refere o frequente reconhecimento da “festa brava” além-mar motivando a deslocação de turistas e visitantes especialmente entre os meses de Maio a Outubro.
“Para além de que a Terceira reúne um elevado número de ganadarias de reses bravas que existem, essencialmente, para a tourada à corda”, remata António Ventura.
“Apostar na qualidade”
Contactado pelo nosso jornal, o critico tauromáquico José Henrique Pimpão considera a iniciativa dos sociais-democratas chegada em boa hora na medida em que “a tourada à corda está a ficar banalizada”.
No seu entender, a criação de um conselho consultivo inter-municipal para a tourada à corda colocará em cima da mesa questões orientadas para o melhoramento da qualidade dessa manifestação cultural terceirense em detrimento da quantidade.
“O diálogo fará as pessoas envolvidas na área sentarem-se à mesa. Só ouvindo os seus intervenientes é que se poderá chegar a conclusões”, defende.
Em matéria de quantidade, continua, o número actual de touradas à corda por dia e, no total, por época “prejudica o prestígio” da festa.
“De 300 passaríamos para 150 por época apurando cada vez mais essa actividade. Muita tourada surge na rua sem qualidade nenhuma e isso prejudica o turismo. Se há muitas no mesmo dia, e tendo em conta que a ilha é pequena, a falta de público desprestigia o espectáculo”, sustenta.
Ainda sobre o alegado “número excessivo” de touradas à corda diárias e anuais, José Henrique Pimpão afirma que não são os ganadeiros nem o povo que ganha com “a abundância”.
“Ganham aqueles que recebem o dinheiro das várias licenças que a lei obriga a pagar”, remata.
Dialogar e criticar
A mesma ideia é partilhada pela responsável pela Casa Agrícola José Albino Fernandes. Fátima Albino considera o diálogo e a crítica construtiva fundamentais para a evolução e o melhoramento do produto, isto é, do toiro, e, por isso, classifica de gratificante a proposta dos vereadores do PSD na CMAH sobre a criação de um conselho consultivo inter-municipal para a tourada à corda.
Neste sentido recorda as antigas reuniões de fim de época cujo propósito era fazer o balanço do ano.
“Há quatro ou cinco anos que já não é feita essa reunião. Ali era o momento em que dialogávamos uns com os outros, fazíamos as avaliações da época, e chamávamos a atenção dos intervenientes, no sentido construtivo, como é o caso dos capinhas. Tudo em nome do melhoramento do produto”, sustenta Fátima Albino, em declarações ao nosso jornal, criticando acções menos correctas por parte desses homens cujo papel é desafiar e dar “um passe” ao toiro.
“O capinha deve dar espaço ao toiro assim que ele sai da gaiola. Os animais não são robots e, portanto, há que ter em conta que as nossas estradas são largas. O trabalho deve ser feito em conjunto e sempre com o objectivo dar cada vez mais qualidade à festa”, conclui a ganadeira.
Sónia Bettencourt
sonia@auniao.com